O que acontece no cérebro de um bebé quando tenta comunicar — e ninguém responde?

Durante muito tempo acreditou-se que, desde que um bebé tivesse alimentação, higiene e abrigo, o essencial para o seu desenvolvimento estaria garantido.

A neurociência do desenvolvimento mostrou-nos que isso não é suficiente.

O cérebro do bebé não se desenvolve no silêncio. Desenvolve-se na resposta.

 

Quando o bebé tenta comunicar

Antes de falar, o bebé comunica através do olhar, dos sons, dos movimentos do corpo e, muitas vezes, do choro.

Estas iniciativas não são “manhas” nem tentativas de controlo. São sinais de contacto.

Quando essas tentativas encontram resposta — alguém que olha, fala, toca, espera e volta a responder — o cérebro recebe informação essencial para se organizar.

Cada tentativa de comunicação é um convite à relação.

 

O que nos mostraram os orfanatos da Roménia

Um dos exemplos mais marcantes do impacto da ausência de resposta relacional surgiu nos orfanatos da Roménia, sobretudo nas décadas de 1980 e 1990, após a queda do regime de Ceaușescu.

Milhares de bebés e crianças cresceram em instituições onde, apesar de existirem cuidados físicos básicos, havia pouca interação humana, pouca linguagem dirigida e quase nenhuma atenção individual.

O que faltou não foi cuidado físico — foi relação humana consistente.

 

O que a ciência observou: o Bucharest Early Intervention Project

Para compreender o impacto desta privação relacional, médicos e investigadores internacionais, liderados pelo neurocientista do desenvolvimento Charles Nelson, da Universidade de Harvard, desenvolveram o Bucharest Early Intervention Project.

As conclusões foram claras:

  • Atrasos no desenvolvimento global

  • Dificuldades cognitivas e emocionais

  • Alterações na estrutura e no funcionamento do cérebro

Crianças que cresceram em contextos de negligência relacional apresentavam diferenças visíveis no volume e na organização cerebral, quando comparadas com crianças criadas em ambientes familiares responsivos.

Exames cerebrais de duas crianças de 3 anos, comparando um desenvolvimento típico com um caso de negligência extrema, mostrando diferenças no volume e na organização cerebral.

Imagens de exames cerebrais de crianças de 3 anos mostram diferenças claras entre um desenvolvimento típico e situações de negligência extrema.
A ausência de interação responsiva teve impacto direto no desenvolvimento cerebral.

A ligação com Harvard e o Serve and Return

Estas conclusões corroboram aquilo que hoje é amplamente defendido pelo Center on the Developing Child — Harvard University.

Segundo a investigação de Harvard, o cérebro desenvolve-se através de interações Serve and Return — ou Comunicação de Ida e Volta:

  • O bebé emite um sinal (um som, um olhar, um gesto ou o choro)

  • O adulto responde de forma atenta

  • Essa troca repete-se ao longo do dia

O segredo está nas respostas suficientemente consistentes ao longo do dia.

 

O que acontece no cérebro quando não há resposta

Do ponto de vista neurobiológico, o bebé aprende sobre o mundo através da repetição de respostas às suas iniciativas de contacto.

Quando comunica e não recebe resposta, o seu sistema nervoso entra num estado de alerta.

Com o tempo, o bebé não “pensa” conscientemente sobre isso, mas o seu cérebro organiza-se a partir de uma conclusão implícita: aqueles de quem dependo não estão disponíveis para mim.

Esta organização interna influencia a forma como o sistema de stress se regula, como a atenção se estrutura e como as relações são vividas mais tarde.

O cérebro adapta-se ao ambiente relacional que encontra.

 

Porque este exemplo extremo nos diz respeito

Os orfanatos da Roménia representam uma situação extrema de negligência relacional.

Mas ajudam-nos a compreender algo essencial também para contextos familiares comuns.

Não é preciso existir abandono para haver impacto.

A ausência repetida de resposta já conta.

A relação é um nutriente essencial do cérebro.

 

A boa notícia: a relação tem poder reparador

Os dados da Roménia e os estudos de Harvard mostram algo igualmente importante:

Onde não há resposta, o desenvolvimento fica comprometido.
Onde há relação, mesmo mais tarde, o cérebro tem capacidade de reorganização.

A relação tem poder organizador e reparador.

 

O que isto significa na prática, para os pais de hoje

Responder ao bebé não cria dependência.

Cria segurança.

Criar segurança não fragiliza.

Constrói bases sólidas para a autonomia, a regulação emocional e a aprendizagem.

É assim que o corpo, o cérebro e a relação crescem juntos.

Responder é um ato de desenvolvimento.

 

Para continuar a aprofundar

Os casos dos orfanatos da Roménia mostram-nos o impacto da ausência relacional.
O conceito de Comunicação de Ida e Volta mostra-nos o caminho.

Se quiser aprofundar este tema:

Pode ler o artigo O Segredo Invisível do Desenvolvimento do Bebé, onde explicamos como as respostas do dia a dia constroem o cérebro infantil.

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